quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

VELHO CASTILHISMO


Juremir Machado da Silva, para Correio do Povo

A governadora quer um avião novo para decolar. A secretária estadual da Cultura pretende transformar o Conselho de Cultura num enfeite sem função deliberativa. A secretária estadual da Educação deseja acabar com a eleição de diretores de escola, aumentar o número de alunos em sala de aula, misturar séries, limitar os aumentos salariais, não aceitando piso com salário inicial, e cobrar mais desempenho dando menos condições de trabalho. Quer tratar a educação pública como negócio privado com prêmios aos mais 'produtivos'. Esse é o velho Rio Grande do Sul castilhista apaixonado por um executivo forte e livre. O escritor Benedito Saldanha, presidente da Academia de Artes e Letras de Porto Alegre, acaba de lançar um pequeno livro muito interessante intitulado 'Apolinário Porto Alegre: a Vida Trágica de um Mito da Província'. Apolinário foi educador, fundador de escolas, escritor, intelectual e perseguido político.
Júlio de Castilhos, conhecido como 'gaguinho da Federação', esse mesmo cujo nome aparece em muitas placas de rua, nomes de cidade e de escolas, mandou desencadear uma terrível perseguição a Apolinário, então morador na célebre casa branca do Morro Santana. Por sorte, os atiradores tinham péssima pontaria. Mesmo assim, Apolinário Porto Alegre teve de suportar um exílio de três anos em Montevidéu. Quando voltou, sua propriedade estava em estado precário. O crime de Apolinário era ter opiniões. Ele fundou o Partenon Literário, lutou pela abolição da escravatura, ajudou a alforriar crianças, libertadas no Theatro São Pedro, e sempre defendeu um liberalismo democrático. Quase foi assassinado por isso.
O tempo de Júlio de Castilhos era trepidante. Quando o caudilho Gumercindo Saraiva foi morto, durante a guerra civil de 1893-1895, o jornal A Federação, porta-voz de Castilhos, publicou uma nota reproduzida por Benedito Saldanha: 'Pesada como os Andes te seja a terra que o teu cadáver maldito profanou... Caiam sobre essa cova asquerosa todas as mágoas concentradas das mães que sacrificaste, das esposas que ofendeste, das virgens que poluíste, besta-fera do Sul, carrasco do Rio Grande'. Sem dúvida, uma linguagem apropriada. A cabeça de Saraiva foi colocada numa chapeleira e enviada ao Gaguinho. São nossos heróis. Gente que governava de faca na bota. Não mudou muito. Estamos apenas mais controlados por mecanismos externos. Mas todo governador sonha em mandar de peito aberto sem ser incomodado pelos demais poderes.
Esse negócio de Conselho de Cultura limitando a ação do executivo não convence nossos dirigentes. Diretor de escola eleito só atrapalha. Ter de se explicar por causa da compra de um modesto jatinho cansa. No tempo do castilhismo e do borgismo, os deputados se reuniam três meses por ano para aprovar o orçamento e iam embora cuidar de vida deixando de atrapalhar o déspota esclarecido. Críticos eram tratados com a crueldade que mereciam. A cada um segundo a sua capacidade de alfinetar ou de causar estrago. Deve ser por isso que não tem placa em homenagem a Apolinário Porto Alegre no Morro Santana. Tem uma em honra do último proprietário da casa branca. O que ele fez de importante? Mandou derrubar a residência onde, bem antes de Apolinário, Bento Gonçalves, Neto e outros discutiram a Revolução Farroupilha.

juremir@correiodopovo.com.br

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